Especialistas alertam para aumento de sobrecarga emocional, diagnósticos tardios e adoecimento silencioso entre mães; histórias reais ajudam a romper a romantização da maternidade
Enquanto o Dia das Mães costuma ser marcado por homenagens e idealizações, uma realidade menos visível tem ganhado espaço nos consultórios: o impacto profundo e muitas vezes silencioso da maternidade na saúde mental, cognitiva e física das mulheres. Especialistas de diferentes áreas apontam que o acúmulo de demandas, a pressão social e a falta de rede de apoio têm levado a um cenário crescente de exaustão, sofrimento psíquico e até diagnósticos tardios.
“A maternidade ainda é romantizada como um estado de plenitude constante, mas o que vemos na prática clínica é um número crescente de mulheres esgotadas, com sintomas de ansiedade, depressão e até burnout parental”, explica a psiquiatra Fabricia Signorelli. Segundo ela, muitas pacientes chegam ao consultório já em estado de colapso emocional, sem reconhecer os sinais iniciais de adoecimento.
A psicóloga e neuropsicóloga Thaís Barbisan reforça que existe uma sobrecarga cognitiva significativa associada ao papel materno. “A chamada ‘carga mental’ envolve não apenas o cuidado direto com os filhos, mas o gerenciamento constante da rotina, o que pode levar a uma exaustão crônica. Não é apenas cansaço, é um desgaste que impacta memória, atenção e tomada de decisão”, afirma.
Diagnósticos tardios: quando a maternidade revela o que estava oculto
Outro fenômeno que chama a atenção dos especialistas é o aumento de diagnósticos tardios de transtornos do neurodesenvolvimento em mulheres adultas, especialmente após a maternidade.
De acordo com a neuropsicopedagoga Silvia Kelly Bosi, o cuidado com os filhos pode funcionar como um gatilho para esse reconhecimento. “Muitas mães passam a identificar em si mesmas características que observam nos filhos, como dificuldades de regulação emocional, atenção ou interação social. Isso tem levado a investigações e diagnósticos de TEA e TDAH na vida adulta”, explica.
A fonoaudióloga Paula Anderle acrescenta que, no caso do desenvolvimento infantil, a pressão sobre as mães também aumentou. “Existe uma expectativa de que a mãe identifique precocemente qualquer alteração no desenvolvimento da criança, especialmente na fala e na comunicação. Isso gera ansiedade e, muitas vezes, culpa, principalmente quando há atrasos ou necessidade de intervenção”, pontua.
Maternidade atípica: o cuidado que não termina e a incerteza do diagnóstico
Para mães de crianças com condições complexas de saúde, a sobrecarga tende a ser ainda maior, especialmente quando não há um diagnóstico fechado. É o caso de Natália Lopes, mãe atípica de uma criança com doença rara ainda em investigação, que transformou a própria vivência em um movimento de apoio a outras mulheres.
“Viver sem um diagnóstico é viver com perguntas todos os dias. É lidar com exames, consultas, hipóteses e, ao mesmo tempo, sustentar emocionalmente uma rotina que nunca desacelera”, relata. Segundo ela, a maternidade atípica, nesses casos, é atravessada não só por demandas intensas, mas pela incerteza constante. “Existe amor, mas também existe medo, exaustão e uma solidão difícil de explicar.”
O corpo também sente: impacto hormonal e físico
Além das questões emocionais e cognitivas, a saúde física da mulher no pós-maternidade também costuma ser negligenciada. A ginecologista e obstetra Karoline Prado destaca que alterações hormonais podem impactar diretamente o bem-estar.
“O puerpério e o período pós-maternidade trazem mudanças hormonais importantes que afetam humor, sono, libido e disposição. Muitas mulheres não recebem o acompanhamento adequado e acabam naturalizando sintomas que deveriam ser investigados”, alerta.
Romper o silêncio é o primeiro passo
Para as especialistas, ampliar o debate sobre o lado menos idealizado da maternidade é essencial para promover cuidado e prevenção. “Falar sobre isso não diminui o amor materno, pelo contrário, cria espaço para que essas mulheres sejam vistas e acolhidas”, conclui Thaís Barbisan.
Neste Dia das Mães, o convite é ampliar o olhar: reconhecer que, por trás das homenagens, existem histórias complexas, desafios reais e uma necessidade urgente de cuidado com quem cuida.

