Os recentes cancelamentos de apresentações artísticas em meio a controvérsias políticas levantam uma reflexão importante: se demitir um trabalhador exclusivamente por sua preferência política pode configurar discriminação, por que deveríamos considerar aceitável cancelar a apresentação de um artista pelo mesmo motivo?
Embora existam diferenças jurídicas entre as situações, o princípio do respeito à liberdade de opinião merece ser observado em ambas.
Cada pessoa tem o direito de se posicionar politicamente conforme suas convicções. Seja de esquerda, de direita ou de qualquer outra corrente de pensamento.
Já imaginou viver em uma sociedade onde todos pensassem, concordassem e decidissem exatamente como você? A pluralidade é parte essencial da democracia.
Existem boas pessoas na esquerda e na direita. Bons profissionais e excelentes artistas em ambos os lados. Assim como existem pessoas de conduta questionável independentemente de suas preferências políticas. O voto, isoladamente, não define o caráter de ninguém.
O que preocupa é a naturalização do radicalismo, quando a divergência deixa de ser motivo para o debate e passa a justificar a exclusão.
Há também uma contradição que merece atenção: defender publicamente a democracia, a tolerância e a liberdade de expressão, mas rejeitar esses mesmos princípios quando alguém manifesta uma opinião contrária.
É a conhecida lógica do “faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço”. A defesa de direitos não pode depender de conveniências políticas.
Discordar de um artista e deixar de consumir seu trabalho é legítimo. Impedir sua atuação exclusivamente por uma opinião política legítima é outra questão.
Quando há recursos públicos envolvidos, deve prevalecer a impessoalidade, não a preferência partidária.
Se é injusto perseguir um artista por apoiar candidato A, também deve ser por apoiar B. O princípio precisa valer para todos.
O radicalismo não pode ser normalizado. Pensar diferente não transforma ninguém em inimigo.
A democracia exige pluralidade e respeito, não unanimidade.
Liberdade que só vale para quem concorda conosco não é liberdade. É conveniência.
✍🏻 Almir Júnior Severo
